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19 de set de 2011

Quando a anencefalia entrou na minha vida e no meu vocabulário

Quando alcançava os cinco meses de gestação, tive que fazer um segundo exame de ultrassonografia, a pedido da minha obstetra, apenas pra saber o sexo do bebê e, claro, confirmar se estava tudo bem, sob nenhuma suspeita. A solicitação dela era mais simples, mas como tinha lido sobre o tal "morfológico", que era mais completo e mostrava tudo no bebê, resolvi fazê-lo só por desencargo de consciência. Fomos em comitiva para a clínica radiológica. Meu sogro e minha mãe estavam tão curiosos quanto o meu marido e eu. Era uma menina. Comemoramos sozinhos na sala, e eu nem percebi que a médica que havia feito o exame nos deixara pra conversar com nossos pais. Quando perguntei se estava tudo bem com o bebê. A resposta veio em tom baixo, apenas um sim. Mal sabia que por trás daquela afirmação existiam tantas dúvidas.
Quando retornamos de viagem de lua de mel, passamos correndo pra pegar o resultado do exame. era um fim de tarde, véspera de feriado. Quando terminei de ler o resultado, entrei em choque e gritei pro meu marido ir direto pro consultório. Minha médica, que era do SUS, já tinha ido embora. Uma outra, que estava apenas anotando umas fichas, me atendeu. E como quem dá uma receita de bolo, me cuspiu o significado da palavra anencefalia. Mas como tempo de preparo da receita, a resposta foi: "Se eu fosse você, pedia na justiça o direito de abortar. Não há o que fazer! Pode ser melhor pra você!" Um buraco se abriu embaixo dos meus pés, mas eu não conseguia nem sequer cair dentro dele. Parecia estar em um outro mundo, ou em um pesadelo que teimava em não acabar. Acho que nunca chorei tanto na minha vida...
O que eu só percebi mais tarde, com o passar do tempo, foi que meu choro não se destinava apenas à minha dor, mas também à rigidez e desprezo pela vida, inclusos nas palavras daquela médica.
Minha família já sabia. Era disso que falavam meu sogro, minha mãe e a médica que fez minha ultrassom enquanto eu e meu marido comemorávamos a descoberta de que Maria Eduarda estava à caminho.
Depois de um longo abraço dos meus irmãos e dos meus pais, tentei me recolher nos braços do meu marido que também sofria, e tivemos a primeira noite de uma nova fase da nossa vida.

3 comentários:

  1. Simplesmente fantástico.
    Tomei a liberdade de comentar seu blog no meu, passe por lá.
    Abraços

    http://catolicosomos.blogspot.com/2011/10/egoismo-x-amor.html

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  2. Kellen, gostaria de seus contatos, também tivemos uma linda filha EMANUELLA com anencefalia e optamos pela vida, pois somente DEUS pode decidir quem deve ou não viver neste mundo . Ela nasceu em 24.10.11... meu e-mail e msn val.vida@hotmail.com (Valdinalva Souza Dallastra)

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  3. Kellen,
    tbém sou jornalista e temos alguns amigos em comum.
    chorei ao ler! Parabéns, vcs deram a duda a vida em momento algum pensaram em ceifar a vida. Com certeza, Deus tem um plano especial na vida de vcs.
    que Jesus abênçõe.

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